Publicado em 12/02/2024 – Por Lucas Alencar, New Orleans Tribune

Introdução — A voz que ecoa além das arquibancadas
Ele grita, canta, vibra, protesta e ameaça — às vezes tudo no mesmo jogo.
Ramon “Trovão” Ferreira é mais que o líder da torcida organizada do New Orleans Saints FC: ele é uma força paralela dentro do clube, um personagem tão temido quanto reverenciado.
Mas quem é, de fato, o homem por trás da faixa preta e dourada que domina o Superdome? Nesta investigação exclusiva, mergulho na trajetória, nas contradições e nos segredos de um dos nomes mais influentes — e controversos — do universo Saints.
Origens e fanatismo

Nascido em Metairie, subúrbio de New Orleans, em 1986, filho de um operário portuário e de uma professora primária, Ramon Ferreira cresceu entre o barulho dos navios e o som das arquibancadas.
Apaixonado por esporte desde cedo, encontrou no futebol (soccer) um refúgio para a dureza da infância. Quando Felipe Gonçalves anunciou a criação do Saints FC, Trovão foi o primeiro a se manifestar publicamente.
“O Saints FC foi um renascimento pra mim. Eu não torcia, eu sofria em silêncio por um clube que ainda não existia. Quando o Felipe criou o Saints, foi como se tivesse atendido um chamado meu.”
Ainda antes da equipe ter uniforme ou técnico, Ramon já organizava encontros, criava cantos e distribuía bandeiras — o Saints FC nascia, e junto dele, a Fúria Dourada, primeira organizada oficial.
Vida pessoal e polêmicas

Hoje, Trovão vive sozinho no bairro Bywater, trabalha como segurança noturno, e passa o tempo livre entre churrascos, sambas e leituras que revelam sua mente inquieta: Angela Davis, Eduardo Galeano e Malcolm X estão entre seus autores favoritos.
É um homem de paixões intensas — e conflitos igualmente intensos.
Em 2013, foi preso por desacato durante um protesto contra a demolição de um campo comunitário. Ao mostrar a ficha da detenção durante a entrevista, sorriu e disse:
“Foi por causa do futebol. Sempre será.”
Outro segredo revelado: por anos, manteve uma conta anônima no Twitter — @BolaNaRaçaNOLA — onde atacava a gestão do New Orleans Pelicans e pregava que “o futuro do esporte da cidade está nos pés, não nas mãos”.
Ramon odeia elitismo, jogadores descomprometidos e qualquer comparação com o Atlanta United — um tema que desperta seu lado mais explosivo.
Inimigos e rivalidades

Todo personagem lendário precisa de um antagonista, e o de Trovão tem nome: Freddy “Big Peach” Jackson, torcedor do Atlanta United e ex-colega de faculdade.
A relação azedou em 2018, após uma aposta perdida e uma provocação sobre a ausência de um time profissional de futebol em New Orleans.
Desde então, os dois protagonizam discussões públicas e brigas verbais nas redes sociais e arquibancadas. Em um Saints x Atlanta, chegaram a ser separados pela segurança do estádio.
Influência no clube

Fontes próximas à diretoria confirmam: Trovão fala diretamente com Felipe Gonçalves.
É consultado em momentos de crise e participa de debates internos sobre ações de torcida e imagem institucional.
“O Trovão é um termômetro do povo”, revelou um diretor sob anonimato.
Entre os jogadores, a relação é ambígua. É querido por Wenderson e Marrony, mas criticou publicamente Sabbi e Cuello, chamando-os de “turistas pagos” após a derrota para o LAFC — áudio que vazou e causou desconforto no elenco.
Seu poder é tão grande que ultrapassa o papel de torcedor. Para alguns, é uma bênção. Para outros, um problema de governança.
Conclusão — O trovão e o poder
Ramon Ferreira é mais do que um torcedor: é um símbolo popular, político e emocional do Saints FC.
Parte paixão, parte provocação, parte protesto.
Ele é amado e temido na mesma medida — o reflexo de uma cidade que vibra entre o sagrado e o caótico.
Mas a pergunta que fica ecoa mais forte que seus gritos no Superdome:
até onde vai o poder de um homem que fala em nome de milhares?
“Não me interessa cargo, me interessa a camisa. Eu sou o Saints. E quem mexer com o Saints, mexe comigo.”
— Ramon “Trovão” Ferreira, em entrevista ao New Orleans Tribune
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